domingo, 3 de agosto de 2008

Da consciência do preconceito e afins.


Eu me lembro,quando era pequena, da proibição de meu pai,ou mesmo a repressão de certos parentes ou amigos quando eu me aventurava a conversar com aquelas pessoas consideradas "excêntricas" ou filhas de mães que por algum motivo que eu não entendia, "não prestavam".
Eu batia o pé e quebrava a cabeça.
Porque teimava em manter as excentricidades e porque guardava a dúvida e a mágoa por não entender aquela ordem de afastamento.
Mas me divertia.
Era como pular uma cerca e entrar em um lugar proibido para cometer o prazeroso ato de pegar a fruta que diziam ser do vizinho,o "dono" da propriedade.
Eu nem sabia que árvores tinham donos e nem que seus frutos não eram livres para serem de quem os quisesse.
E assim eram para mim as pessoas.
Eu burlava as regras naquela época e brincava,corria,gritava e ria...uma risada esquecida,mas vez por outra manchada com aquela culpa de não obdecer as minhas pequenas leis,que regiam a minha infância e juventude.
Acho que foi ali que conheci essa palavra horrenda chamada culpa. Sem perceber, comecei a andar de ombros encolhidos e a ficar corcunda.
Um dia me abriram os olhos e disseram que aquilo não era postura de menina-moça. E devia eu,aos olhos deles, estar com vergonha por aqueles seios que despontavam.
Mal sabiam eles que era a culpa que me pesava.
Por não ir de acordo.
Por agir contra os meus pais,que eram meu mundo,minha segurança e garantia -pela primeira vez eu cometera o pecado de discordar deles,e aquilo me doía até onde eu não podia mais.
Passou o tempo e então descobri que discordar não diminuía em nada o amor e o respeito que tenho por eles,mas me ajudava mesmo era a entender o amor por mim. A entender que o amor por mim abrangia o amor por todos os seres,sem exceção.
Até mesmo aquela de quem falavam mal,e o homem bêbado e o mendigo que um dia falou comigo. E hoje,abrange todos aqueles que não se encaixam em padrões que a sociedade,visivel ou invisivelmente,constrói. Ainda o poeta ,o artista ... o visionário,o sensitivo, o louco,o triste... e todos que vivem à margem das coisas comprovadas pela ciência,mas que me valem muito mais que qualquer compreensão humana e científica das coisas. Porque me auxiliaram no caminho e demonstraram que maiores são os laços de amor,amizade e de sentimentos que não fazem distinção entre as pessoas...e permitem um olhar maior,amplo, rastreando lugares,sentidos e coisas que aqueles que criam as grades da separação e do preconceito,nunca verão.
É por essas e outras que não abro mão de ninguém.
E triste daqueles que não abrem as portas para a oportunidade de olhar dentro dessas almas, de uma maneira tão simples como permite o hábito de conversar,ouvir e desligar todos os sentidos para ver. Triste daqueles que não abrem as portas para a sabedoria e uma tão grande compreensão, que apreende sentidos,pensamentos e emoções.Estão perdendo a chance de ser mais do que isso que são. Estão perdendo a chance de crescer,estão perdendo a chance de evoluir,ascender. Estão perdendo a chance de SER.

2 comentários:

Ingrid Oliveira ! disse...

Adorei seu blog !

Cerikky.. Cesar Ricardo Koefender disse...

No maravilhoso "Sob o sol de Toscana"
o acolhimento e o relacionamento com os ditos excêntricos adquire tonalidades poéticas... e estéticas!
A protagonista tem uma amiga homossexual que engravida; acolhe uma louca discriminada com a qual passa a nutrir possibilidades de diálogo; trava uma batalha a favor da união de dois "jovens demais" e de classes sociais diferentes... tudo isso sozinha, num país estrangeiro, e após a separação do marido que a traiu com outra.

Enquanto vai se entregando, literalmente, à construção da sua casa e da sua vida, ela vive as intensidades desses encontros, com um bando de homens que contrata e com um casado que desenvolve um especial affair por ela.
Um filme por onde pululam devires sociais.

Eu penso que há dois tipos de excêntricos: um, é o tipo egóico, por não se achar em lugar algum, é pura vontade de diferença; passa a ser um chato institucionalisando o que é loucura como uma identidade capenga e artificialmente montada.
O outro, um tipo sensível à diferentes maneiras de ser e estar no mundo; mais do que um rebelde, som ou sem causa, é um vivente que não pretende instituir regras com as suas condutas... também ditas excêntricas.
Ambos são bem vindos ao conjunto dos momentos históricos e sociais, mas, dos primeiros, eu quero distância.